Faz tempo que eu queria te escrever. A gente costumava manter uma correspondência intensa. Você me escrevia largos e-mails e eu te respondia com o mesmo entusiasmo. Abrir minha “caixa de entradas” era uma grande alegria a cada dia. Você me disse que o que eu te falava muitas vezes te ajudou a sair do buraco, eu ficava feliz em poder te inspirar. Afinal, você foi a grande vibração que me despertou. Eu entendi depois qual era a sua profissão, eyes opener warrior, despertador de consciências que alterava as trajetórias individuais ensinando como amar a vida.
Eu lembro bem a primeira vez que eu te vi. Foi na Bailha. A gente se cruzou, nossas miradas se encontraram e eu arrepiei. Mas pensei que a sua beleza seria inalcançável. Música vai, música vem, ela apareceu. Doce olhar, palavras amigas. Eu me deixei levar e ela me levou até você. Uma fada dos desejos e logo ela sumiu. Você ficou meio chateado, mas essa foi a rápida e grande missão que ela cumpriu. Outros cometas iluminaram, mas a única estrela brilhante que permaneceu foi você, apontando a luz no céu.
Os dias passaram e a gente partiu. Pra deixar aquele espaço sagrado foi necessário um barco. A gente foi embora cantando: “Anauê, auee aueee aaaaaa Anauê, que aue aaaa”. As batidas não saiam da cabeça apesar de que já não se escutava mais a música. Ficamos sabendo depois que aquele lugar se inundou e de súbito pensei: “era mágico demais pra existir nessa realidade...” Agora só existe na memória dos que lá estiveram... ou quem sabe nem existiu, pode ter sido um sonho coletivo, eu acho que foi.
Tomei minha direção, tranças no cabelo, você no coração. Desde então nunca mais nada foi igual. Tudo era diferente, mais bonito. Logo descobri que “Anauê” significa em tupi “você é meu irmão”. De fato, foi uma das experiências de irmandades mais fortes, uma realidade alternativa ideal, algo tirado do mundo das idéias de Platão. Você, Morpheus, voltou pro seu karma. Ela era o descontentamento e a desesperança. Mas você continuava alimentando essa relação, apesar de todas as minhas tentativas contrárias. Não entendia o porquê. Hoje sei que a luz não existe sem a escuridão.
Voltamos a nos encontrar, o lugar era alienígena. Eu seguia as suas instruções. Tinha perguntas que fazer, mas ela reprimia qualquer manifestação. Segui as descobertas na solidão. Você combatia nos banheiros. Eu fiz amigos com os cinzeiros. Você via câmaras por todos os lados, ninguém acreditava, mas tudo saiu na televisão. Ninguém filmou os momentos lindos, os encontros de amigos, os reencontros das almas. Só passaram uma bobagem que nem me chamou a atenção.
You in the other side
Meses eram os intervalos de espera para uma nova revelação. Não sei como agüentei tantas horas, somente apoiada pelo alimento gerado em cada situação. Resolvi viajar na sua direção. Você foi me buscar sem hesitação. Foi o encontro esperado durante milênios, os dias melhores vividos, a beleza em sua total manifestação. Momentos intensos, belíssimos, em uma outra dimensão. Tudo foi vivido em total exaltação. Uma harmonia divina, um brilho estrelar, uma grande liberação. Você era o refugio da dor, a luz na escuridão, a chama amiga que dissolve a ilusão. Também avistamos lugares escuros, mas éramos o farol guiando a tripulação. Todos se aproximavam querendo um pouco dessa radiação. Mas já sabíamos que o nosso destino era a ilusória separação. Era o momento de dizer adeus forçado pela situação. Eu escrevi na sua parede palavras de intenção: I hope I will never wake up from our dream. Mas o relógio tocou e era a hora de despertar, de deixar essa perfeição.
Outra vez nos coincidimos, não sabíamos que essa seria a última reunião. Cem metros de água caindo não eram mais fortes do que a enxurrada que revirava todas as emoções. Dessa vez você me deixou entre amigos e seguia ao lado da sua obsessão. Depois disso nunca mais uma palavra, nenhuma explicação. Eu me conformei, te mandei presentes e fechei aquela indecisão. Outros momentos, outros encontros, sem nunca abandonar a recordação. Aceitei a situação e a vida me chamou para outra missão.
Muitos amanheceres depois e me vejo compelida àquele tipo de celebração. Foi quando soube do que havia acontecido, de por que nunca mais ter recebido noticias, da intromissão da noite em assuntos luminosos. Mas também escutei as suas declarações, o verdadeiro sentir, o profundo sentimento, a verdadeira conexão. Fiquei feliz, sem saber que essa seria de fato a última visão. Perto do mar nos conhecimos e perto dele nos despedimos. Da grande imensidão tudo brota e para ela tudo regressa.
Um momento de trabalho intenso pra mim e pra você. Agora sim retomamos a escrita, em ritmos não tão contínuos. Você finalmente tentava deixar para trás aquela maldição. Mas o contato profundo com a dor deixou vestígios que queriam tomar conta e não soltavam com facilidade. Você me escrevia e eu me preocupava. Inúmeras vezes te chamei, te gritei, te invoquei. Mas não sei o que te impedia, não coincidia, se retinha. Estivesse mais forte e eu te arrancaria, te apertaria, te salvaria. Mas não, não foi assim. Eu mal suportava estar perto de mim. Foram processos concomitantes, eu também sentia e você do outro lado desvanecia. Mesmo assim você não deixou que me contassem, sabia que eu não suportaria e quem sabe inclusive te acompanharia. Quando uma chama de esperança brotou, quando meu caminho de novo se espelhou, foi nesse lapso que o fato finalmente se revelou.
Quando foi que nos desviamos, quando você pulou pro outro lado, quando foi que o Sol perdeu a batalha no inframundo? Faltou sacrifício, oferendas, presentes? Faltou louvar, foi cometida alguma profanação? Havia razão, motivo, que espécie foi essa de decisão? Eu falhei, você desistiu? Um Jedi perdido pro lado Escuro da Força?? Um centauro que não aguentou a falta de cicatrização? Será isso?? Vale a pena seguir então? Silencio. Nada, apenas a indagação.
Sempre quando posso te presto homenagens, te rezo, te peço ajuda, chamo a tua luz pra dissipar a escuridão. Não sei se naquela noite era você ou apenas uma visão. Não sei o que fazer, pensar, razoar. Consola-me saber que tuas últimas palavras foram: “vai ficar tudo bem”. Espero que sim, espero assim. Outro dia encontrei uma carta sua. “hahahahha mó vontade de largar tudo e fugir pra Oaxaca com vc, cê num faz idéia...”. Quando você disse isso ainda nem imaginava onde eu ia parar, mais uma adivinhação sua, grande mago.
Eu demorei pra te escrever, eu sei. Mas já não importa, dias, meses e anos são apenas uma ilusão tridimensional entre nós. Mas ontem eu vi uma cena que para mim foi a conclusão. Não foi igual, faltavam muitos elementos, eu me perguntava onde foi parar a inspiração? Mas ela anda por aí, escondida, esperando quem vai trazer a explosão. Te digo, eu quero ficar, eu quero muito durar e perdurar, mesmo que custe muito caminhar. Será que ainda posso te pedir uma coisa? Por favor, quando tudo isso terminar wait for me in the other side.
"Se dice que las vidas de algunas personas están ligadas en el tiempo, conectadas por una llamada ancestral que hace eco a través de los siglos...algunos le llaman destino. "















